Sabe, tento me manter à tona, nem sempre é simples, qualquer movimento mais brusco, qualquer distração, perco o equilíbrio e volto a descer.
Nem sempre é assim. Na maior parte do tempo nem me lembro onde estou, às vezes é até confortável aqui. Só nos dias muito quentes ou muito frios é muito ruim, porque não há alívio, só há constância. No frio é pior, pois nada aquece.
Outro dia senti uma coceira no pé, achei que ia enlouquecer, com a agitação comecei a descer, aí acho que o medo de descer mais ainda levou a coceira embora.
Me assusto quando começa a ficar escuro demais, mas se você fechar os olhos e respirar fundo passa.
Desde que cheguei aqui aprendi a ver as coisas de uma forma diferente. Deve ser o ângulo, daqui se vê com mais perspectiva, de mais perto.
Daqui vejo as pessoas e suas alturas, todas querendo ir mais alto sempre, esquecendo que têm os pés junto ao chão... os passos sempre largos e apressados, sempre deixando atrás de si rastros e sempre jogando seus lixos quando acham que ninguém está olhando, depois reclamam de tropeçar neles.
De vez em quando um ou outro para pra conversar; geralmente se demoram mais quando precisam desabafar e eu os ouço; sabe, é bom ter alguém para nos ouvir. Uns são engraçados, vivem ironicamente, só que nem sempre consigo entender suas piadas, aí eles se zangam e vão embora. A maioria acena de longe, perguntam como vai a vida e se despedem alegando pressa. Sempre há pressa. Outros param só para reclamar do tempo, muito quente, muito frio, muito seco, chove demais. Poucos, não muitos, passam e dão bom dia, por obrigação, eu acho. Dizer bom dia devia ser uma arte não uma obrigação, eu divago. Tem também os que passam por aqui e fazem de conta que não vêem. Também há muitos que, lá da margem, dão tchauzinho, jogam beijinho e acenam positivo com a mão.
Gosto de ver as pessoas que passam por aqui, gosto delas. Só me irritam às vezes, quando fazem sempre as mesmas perguntas, quando se distraem enquanto eu respondo, quando fazem perguntas cujas respostas não querem saber, sempre preocupadas com o umbigo.
Pessoas com umbigos são as mais difíceis, pois às vezes elas se esquecem que são pessoas e se tornam apenas umbigos. Grande mal esse umbigo. Acho que vamos morrer todos de umbigo, é epidemia já e ninguém reparou. Só percebi isso quando cheguei aqui, parece que daqui se vê melhor o tamanho dos umbigos. Meu umbigo também cresce.
Mas não é tão ruim assim, sabe...
Só daqui é possível ver primeiro quando a planta nasce, pode-se até ouvir o barulho da terra quando se abre pra ela passar, mas eu só ouço de longe, não dá pra chegar lá na margem.
No verão me divirto vendo as gotas de chuva que estalam quando tocam o chão; se chove fraquinho à noite, me ajuda adormecer; se é tempestade passo tempo tentando adivinhar onde vai nascer o próximo raio.
No outono é confortável aqui, é mais tranquilo.
No inverno só os ipês que caducam me impedem de morrer de frio.
Na primavera só não gosto dos insetos. É tanto inseto, voando em todas as direções, cigarras estridentes, grilos irritantemente inquietos, libélulas, aleluias... algumas espécies têm aparecido menos nos últimos anos, esperanças quase nada e há anos não vejo um louva-deus.
Está começando a chover. Espero que não chova muito forte. Se chove forte e por muito tempo a densidade da areia diminui e eu começo a descer mais...
Não, não conheço o fundo.
Alguns dias acho que estou quase lá, mas aí volto à tona...
Lá no fundo, deve ser bom, já que não há mais aonde ir.